sexta-feira, 23 de maio de 2014

Em Todos Menos Nestes

Domingo é Dia de São Votar. Feitos os sacrifícios de os ouvir e as penitências por votarmos confiadamente na defesa dos nossos interesses, iremos em romaria à urna mais próxima comungar das ilusões e das esperanças que ainda temos de que o nosso voto conte para alguma coisa que nos traga benefício, a curto e a médio prazo. Nesta Europa a que pertencemos mas que não é nossa.
O poeta Joaquim Pessoa dá-nos uma ajuda no enquadramento da nossa intenção de escolha:

Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado
pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Casamento da Culpa

Encontrei estes versos num comentário do face e não resisti. A Culpa, coitada, bem quer morrer solteira mas não a deixam. Tantos pretendentes, incluindo cada um de nós. Todos somos culpados de alguma coisa, quanto mais não seja de não termos culpa de coisa alguma...
Na minha profissão, então,é ver quem atira mais culpas em modo olímpico: mais alto, mais forte, mais longe. E a maior parte das vezes é tão simples de ver que a culpa está tão somente em nós próprios. Pequenez, arrogância, acriticismo, (sei lá!), tolda-nos a perspetiva e a cor da realidade.

A culpa é do pólen dos pinheiros
Dos juízes, padres e mineiros
Dos turistas que vagueiam nas ruas
Das 'strippers' que nunca se põem nuas.

Da encefalopatia espongiforme bovina
Do Júlio de Matos, do João e da Catarina
A culpa é dos frangos que têm HN1
E dos pobres que já não têm nenhum.

A culpa é das prostitutas que não pagam impostos
Que deviam ser pagos também pelos mortos
A culpa é dos reformados e desempregados
Cambada de malandros feios, excomungados.

A culpa é dos que têm uma vida sã
E da ociosa Eva que comeu a maçã
A culpa é do Eusébio, que já não joga a bola,
E daqueles que não batem bem da tola.

A culpa é dos putos da casa Pia
Que mentem de noite e de dia
A culpa é dos traidores que emigram
E dos patriotas que ficam e mendigam.

A culpa é do Partido Social Democrata
E de todos aqueles que usam gravata
A culpa é do BE, do CDS, do PS e do PCP
E dos que não querem o TGV.

A culpa até pode ser do urso que hiberna
Mas não será nunca de quem nos governa

domingo, 4 de maio de 2014

Dia da Mãe

Quando Eu For Pequeno  

Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos 

e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

José Jorge Letria, in "O Livro Branco da Melancolia"